Uma vala comum com 77 corpos, composta majoritariamente por mulheres e crianças, está ajudando pesquisadores a compreender como massacres violentos eram usados como estratégia de poder na Europa há cerca de 2,8 mil anos.
O achado foi feito no sítio arqueológico de Gomolava, no norte da Sérvia, e indica um episódio de violência classificado como “brutal, deliberado e eficiente”. O estudo foi publicado nessa segunda-feira (23/2) na revista científica Nature Human Behaviour.
Descoberta de massacre na Gomolava
A vala foi encontrada em Gomolava, próximo à atual cidade de Hrtkovci, às margens do rio Sava, na Sérvia. O local era ocupado desde o sexto milênio antes de Cristo e, no século 9 a.C., estava situado em uma região marcada por muitas transformações sociais.
Naquele período, grupos semissedentários — comunidades da Idade do Ferro — começaram a se consolidar na Bacia dos Cárpatos, o que gerou disputas por território e poder. Segundo os pesquisadores, Gomolava ocupava um ponto considerado crítico, tanto do ponto de vista físico quanto político.
Predominância de mulheres e crianças no massacre
A cova tem cerca de 2,9 metros de diâmetro e meio metro de profundidade. Dentro dela, arqueólogos encontraram 77 esqueletos humanos. O dado que mais chamou atenção foi o perfil das vítimas: mais de 70% eram mulheres e quase 69% eram crianças.
Para os pesquisadores, essa predominância é incomum na pré-história europeia e sugere que o grupo foi alvo de um ataque específico.
Além dos corpos, também foram encontrados objetos de cerâmica, pequenos adornos de bronze e ossos de quase 100 animais — entre eles, o esqueleto completo de uma vaca jovem. Buracos de postes ao redor da vala indicam que o local pode ter sido marcado ou transformado em algum tipo de memorial.
Marcas claras de execução violenta
A análise dos esqueletos mostrou indícios fortes de traumatismo craniano causado por golpes intencionais e letais. As fraturas indicam um contato próximo entre agressor e vítima e uso de força contundente, possivelmente com armas ou instrumentos pesados.
A posição dos ferimentos sugere que os agressores poderiam estar a cavalo ou ser fisicamente mais altos que as vítimas. O padrão geral, segundo os autores do estudo, aponta para uma ação organizada, programada e bem eficiente.
Para entender quem eram as vítimas, os cientistas analisaram o DNA dos indivíduos. O resultado mostrou que poucos tinham laços familiares próximos entre si, afastando a hipótese de que se tratava de um único grupo familiar.
A análise de isótopos de estrôncio — substância que fica no esmalte do dente e que ajuda a identificar a origem geográfica — revelou ainda que mais de um terço das pessoas não havia crescido na região de Gomolava. Ou seja, o grupo era diverso e reunia indivíduos de lugares diferentes.
Conflitos por terra e poder
Embora a causa exata do massacre permaneça desconhecida, o contexto histórico oferece pistas. O século 9 a.C. foi marcado por deslocamentos populacionais e tensões entre modos de vida nômade e sedentário.
Nesse contexto, disputas pelo uso e posse da terra podem ter provocado massacres violentos, migrações forçadas e até a eliminação estratégica de determinados grupos.
Os pesquisadores sugerem que mulheres e crianças — fundamentais para a continuidade genealógica e social das comunidades — podem ter sido alvo para enfraquecer ou desestruturar grupos rivais.
Não é a primeira vez que indícios parecidos são encontrados no local. Em 1954, outra vala comum foi descoberta em Gomolava, também com predominância de esqueletos femininos e objetos associados à mesma época.
Para os autores, o conjunto de evidências indica que o massacre pode ter sido utilizado como ferramenta de reorganização de poder.
O caso de Gomolava revela que a violência em massa já era empregada de forma estratégica na Europa pré-histórica — não só como uma consequência do massacre, mas também como instrumento para impor controle e redefinir estruturas sociais.