Por ser transmitida principalmente através da relação sexual sem preservativo, a sífilis é classificada como uma infecção sexualmente transmissível (IST). Causada pela bactéria Treponema pallidum, a doença também pode ser congênita – ou seja, passada de mãe para o feto.
De acordo com os dados do boletim epidemiológico mais recente, divulgado em outubro do ano passado pelo Ministério da Saúde, o Brasil registrou 810 mil casos de sífilis em gestantes entre 2005 e junho de 2025. Também foi registrado um aumento da transmissão vertical em 2024, quando a doença vai de mãe para o bebê.
Os dados expõem uma realidade no país: o aumento da proliferação da infecção. Em entrevista ao Metrópoles, o infectologista Fernando Silveira aponta que formalmente o Brasil já trata a sífilis como uma epidemia em curso.
“Em saúde pública, ‘epidemia’ não significa apenas explosão repentina, mas um número de casos acima do esperado e mantido ao longo do tempo. A sífilis no Brasil é um problema epidêmico persistente, com casos acima do esperado por um período prolongado”, diz o especialista da Secretaria de Estado de Saúde do Distrito Federal (SES-DF).
O não uso de preservativo durante as relações e falta de tratamento entre todos os parceiros ou parceiras envolvidas facilitam a transmissão e, consequentemente, o risco epidêmico. Além disso, há um atraso no diagnóstico devido a um aspecto peculiar.
“A sífilis frequentemente passa despercebida porque suas lesões primárias são indolores e a doença pode permanecer assintomática por longos períodos (fase latente), o que faz com o que o paciente não saiba que tem a doença”, explica o dermatologista Ademar Schultz, professor do Centro Universitário de Brasília (Ceub).
Sintomas da sífilis
- Feridas indolores na região onde houve o contato sexual, especialmente nas genitais, reto ou cavidade oral.
- Manchas no corpo, principalmente nas palmas da mão ou solas do pés.
- Febre.
- Mal-estar.
- Ínguas.
Caso não seja tratada adequadamente, a infecção pode evoluir para quadros mais graves, podendo causar danos consideráveis no sistema nervoso, coração, olhos e até levar à morte. Em gestantes, a sífilis pode provocar sífilis congênita, aborto e morte do feto.
A qualquer sintoma semelhante, especialmente para quem tem vida sexual ativa, é essencial buscar ajuda médica. Na fase latente da infecção, ela só é detectada através de exames.
Veja as ISTs mais comuns e seus sintomas


Herpes genital – Altamente contagiosa, a herpes genital é causada pelo vírus Herpes simplex (HSV). As pessoas infectadas podem desenvolver pequenas bolinhas vermelhas muito próximas umas das outras na pele das coxas, anus e órgãos genitais. Essas bolinhas contêm um líquido altamente viral de cor amarelada que causa coceira. Além disso, a doença pode se manifestar com febre, dor ao urinar e, no caso de mulheres, corrimento
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Aids –é causada pelo vírus HIV e faz com que o sistema imunológico perca a capacidade de defender o organismo. Ainda não tem tratamento conhecido que seja eficaz.
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Gonorreia e infecção por Clamídia – Na maioria das vezes, as duas doenças estão associadas. A infecção atinge os órgãos genitais, a garganta e os olhos. Quando não é tratada, a gonorreia pode levar à infertilidade. Os principais sintomas em mulheres são dor ao urinar ou no pé da barriga (baixo ventre), corrimento amarelado ou claro fora do período de menstruação, dor ou sangramento durante a relação sexual. Os homens costumam sentir ardor e esquentamento ao urinar, corrimento ou pus e dor nos testículos
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HPV – A infecção por papilomavírus humano (HPV) é uma das mais incidentes e pode ser prevenida com vacina. Ela leva ao aparecimento de lesões na pele dos órgãos genitais de homens e mulheres. A textura dessas alterações pode ser suave ou rugosa, com coloração que varia de acordo com o tom de pele. Elas não causam dor, mas são contagiosas
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Sífilis – A sífilis é uma infecção bacteriana geralmente transmitida pelo contato sexual ou pelo contato com sangue infectado. Os primeiros sintomas surgem no intervalo de três a 12 semanas após o contágio, provocando feridas e manchas vermelhas nas mãos e pés que não sangram e nem causam dor. A sífilis pode provocar cegueira, paralisia e problemas cardíacos
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Infecção pelo HTLV – Pouco conhecido, o HTLV é um retrovírus da mesma família do HIV, possuindo em comum as mesmas formas de transmissão. A maioria das pessoas não apresenta sinais e sintomas durante toda a vida. Dos infectados pelo HTLV, 10% apresentarão alguma doença associada, como doenças neurológicas, oftalmológicas, dermatológicas, urológicas e hematológicas
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Tricomoníase –
A tricomoníase é uma das infecções sexualmente transmissíveis mais comuns, provocada por um parasita. Os principais sintomas são: dor durante a relação sexual, ardência e dificuldade para urinar, coceira nos órgãos sexuais, corrimento abundante, amarelado ou amarelo esverdeado, bolhoso
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Como conter o avanço da sífilis
Para o infectologista, a contenção da sífilis passa por três passos essenciais: mais testagem; tratamento imediato; e interrupção da cadeia de transmissão. “Isso significa ampliar o acesso a testes diagnósticos, iniciar tratamento sem demora quando indicado, garantir terapias adequadas nas unidades de saúde e tratar também os parceiros sexuais”, diz Silveira.
Já para evitar a IST antes da contaminação, as dicas são simples, mas eficazes:
- Utilizar preservativo em todas as relações, seja vaginal, anal e oral;
- Buscar ajuda caso perceba sintomas ou tenha se colocado em situação de risco;
- Realizar o exame rotineiramente, caso tenha vida sexual ativa;
- Caso seja infectado, avisar às parceiras e/ou parceiros que houve envolvimento sexual.
“Houve um aumento expressivo dos casos, particularmente entre homens que fazem sexo com homens, após a implementação da profilaxia pré exposição (PrEP) para HIV. Determinantes sociais de saúde, incluindo disparidade de renda, baixa escolaridade e escasso acesso aos serviços de saúde contribuem para taxas mais altas em determinados grupos”, afirma Schultz.
Recentemente, em março, o Ministério da Saúde incorporou ao Sistema Único de Saúde (SUS) a doxiciclina, um antibiotico para ser usado após relações sexuais sem proteção e diminuir o risco de infecção por sífilis e clamídia.
O medicamento tem como prioridade homens cisgênero gays, bissexuais e outros homens que fazem sexo com homens, além de mulheres transgênero, considerado os grupos mais vulneráveis a sífilis.
“Temos diagnóstico simples, teste rápido gratuito no SUS e tratamento eficaz. O desafio não é falta de ferramenta e sim fazer essas elas chegarem cedo a quem precisa”, ressalta o infectologista.