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Familiar de vítima da chacina aponta impunidade: “Um ficou livre”

A familiar de uma das vítimas do caso que ficou conhecido como a maior chacina do Distrito Federal, Alzira Pereira, 52 anos, manifestou indignação com o resultado do julgamento do crime, proferido no final desse sábado (18/4), e questionou a pena aplicada a um dos réus.

Representando a família materna da vítima Cláudia da Rocha Marques (à esquerda na camiseta que aparece na foto em destaque), Alzira afirmou que a decisão não trouxe a sensação de justiça esperada. “Essa pessoa recebeu apenas dois anos [de prisão] por ter ido fazer um assalto. [A justificativa] foi de que precisava de dinheiro. Isso é revoltante”, disse a mulher.

Para Alzira, apesar das condenações elevadas aplicadas a outros envolvidos, o fato de um dos integrantes não ter recebido punição mais rigorosa causa preocupação. “Alguém dessa quadrilha ficou livre. Alguém vai ser a voz, o porta-voz dessa quadrilha na rua”, declarou.

A pessoa em questão é Carlos Henrique Alves da Silva. O réu respondia acusações de sequestro e participação na morte de Thiago Belchior – outra vítima do crime bárbaro. O júri, porém, entendeu que Carlos não participou de nenhum homicídio, mas do sequestro do rapaz – que resultou na entrega dele aos executores.

Alzira contou que veio do Rio de Janeiro para acompanhar o julgamento e que a expectativa da família era por penas máximas para todos os réus. “Todo mundo estava esperando que todos tivessem a pena máxima. Carlos Henrique não foi menos pior do que ninguém”, afirmou.

A mulher também contestou a avaliação sobre a participação de Carlos Henrique no crime. Segundo ela, a atuação dele teve consequências diretas para o desfecho trágico. “Quando ele pega e entrega o Thiago, o Thiago foi entregue para morrer. Como é que ele não pode ser implicado no crime?”, questionou.

A familiar destacou ainda que, na visão dela, a sequência dos acontecimentos liga diretamente o réu às demais vítimas. “Através do Tiago, a Elizamar foi pega. As crianças foram pegas. Como é que o Carlos sai ileso disso?”, disse, demonstrando inconformismo.

Ao final, Alzira afirmou que deixa o julgamento sem a sensação plena de justiça e criticou a legislação penal brasileira. “Não dá para a gente sair daqui com a certeza de justiça em relação ao Carlos. Trezentos e poucos anos é pouco”, declarou. Ela também defendeu mudanças mais rigorosas nas leis. “Se esse crime bárbaro não mudar as leis, a gente vai ver outras 10 pessoas sendo assassinadas”, concluiu.

Tribunal do Júri

O Tribunal do Júri da chacina teve início na segunda-feira (13/4) e durou seis dias. O julgamento já é considerado o segundo mais longo da história da capital, atrás apenas do júri do caso que ficou conhecido como o Crime da 113 Sul, que se estendeu por 10 dias.

No total, os jurados ouviram 18 testemunhas ao longo de uma semana, os cinco réus e quase 7h de debate entre defesa e Ministério Público.

Os réus responderam por homicídio qualificado, latrocínio, ocultação de cadáver, extorsão mediante sequestro, associação criminosa qualificada e corrupção de menor.  Somadas, as penas dos réus envolvidos no extermínio de toda uma família chegam a 1.258 anos de prisão.

Veja como foram distribuídas as penas:

Gideon Batista de Menezes: apontado como o mentor do crime, Gideon foi condenado por 10 homicídios qualificados, ocultação e destruição de cadáver, corrupção de menores, sequestro e cárcere privado, extorsão mediante sequestro, constrangimento ilegal com uso de arma, associação criminosa e roubos.

A pena total estipulada a ele foi de 397 anos, oito meses e quatro dias de reclusão.

Horácio Carlos Ferreira Barbosa: considerado a segunda mente por trás dos crimes, Horácio foi condenado por 10 crimes de homicídio qualificado, ocultação e destruição de cadáver, corrupção de menores, extorsão mediante sequestro, sequestro e cárcere privado, constrangimento ilegal com uso de arma, associação criminosa, roubos e fraude processual.

No total, ele deverá cumprir 300 anos, seis meses e dois dias de reclusão.

Carlomam dos Santos Nogueira: segundo o Ministério Público, Carlomam teve participação direta nos sequestros e nas mortes. Ele foi condenado por 10 homicídios, extorsão mediante sequestro, corrupção de menor, ocultação e destruição de cadáver, sequestro e cárcere privado, ameaça com uso de arma, associação criminosa, constrangimento ilegal com uso de arma e roubos.

A pena determinada a Carlomam foi de 351 anos, um mês e quatro dias de reclusão.

Fabrício Canhedo Silva: condenado por cinco homicídios qualificados, extorsão mediante sequestro, ocultação e destruição de cadáver, corrupção de menores, associação criminosa, roubos, corrupção de menores e fraude processual.

A pena definida para Fabrício foi de 202 anos, seis meses e 28 dias de reclusão.

Carlos Henrique Alves da Silva: condenado por sequestro. Pena estipulada em 2 anos de reclusão.


Entenda o caso

  • Entre outubro de 2022 e janeiro de 2023, os acusados se associaram para tomar a chácara Quilombo, no Itapoã (DF), e também para obter dinheiro da família de Marcos Antônio Lopes de Oliveira. O plano inicial previa matar Marcos e sequestrar seus familiares.
  • Em 27 de dezembro de 2022, parte do grupo foi à casa da vítima, rendeu Marcos, a esposa e a filha, e roubou cerca de R$ 49,5 mil. As três vítimas foram levadas para um cativeiro no Vale do Sol, em Planaltina (DF), onde Marcos foi morto e enterrado.
  • No dia seguinte, as mulheres foram ameaçadas e obrigadas a fornecer senhas de celulares e contas bancárias. Com os aparelhos, os criminosos passaram a se passar pelas vítimas para atrair outros familiares.
  • Entre 2 e 4 de janeiro, a ex-esposa de Marcos, Cláudia da Rocha, e a filha Ana Beatriz foram atraídas, rendidas e levadas ao mesmo cativeiro.
  • O grupo decidiu matar Thiago, filho de Marcos, e o atraiu ao local em 12 de janeiro. Ele também foi rendido e mantido em cárcere. Com acesso ao celular de Thiago, os criminosos atraíram a esposa dele, Elizamar, junto com os três filhos do casal.
  • Eles foram levados a Cristalina (GO), onde foram mortos. Os corpos foram queimados dentro do carro da vítima. Em seguida, os acusados decidiram matar as demais vítimas para evitar que os crimes fossem descobertos.
  • Renata e Gabriela foram levadas a Unaí (MG), onde foram mortas e tiveram os corpos queimados. Depois, Cláudia, Ana Beatriz e Thiago também foram assassinados e tiveram os corpos escondidos em uma cisterna.
  • Após os crimes, parte do grupo incendiou objetos das vítimas para dificultar as investigações.

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