A divulgação do resultado definitivo dos blocos habilitados para o Carnaval do Distrito Federal em 2026 reacendeu um debate antigo na cena carnavalesca local. De um lado, a Secretaria de Cultura e Economia Criativa do DF defende um modelo competitivo, baseado em critérios técnicos e pontuação objetiva. Do outro, blocos tradicionais e periféricos que ficaram de fora questionam a transparência do processo e o impacto da burocracia sobre uma festa historicamente construída na rua.
Blocos tradicionais, como Menino de Ceilândia, Suvaquinho da Asa, Tesourinha e Divinas Tetas, não irão sair no Folia DF 2026 e reclamam da falta de transparência nos critérios adotados pelo edital do governo.
O Bloco Menino de Ceilândia participa dos editais da cultura há décadas e nunca havia sido desclassificado. Segundo o coordenador Ailton Velez, a notícia chegou de forma seca, por meio da publicação oficial do resultado. “Foi essa divulgação que a gente recebeu, com muito desalento”, afirmou.
Ailton destaca que a exclusão ocorreu por uma diferença mínima de pontuação, de apenas 0,2 ponto, e critica a falta de clareza na avaliação técnica. Ele relata que a ficha devolvida pela secretaria aponta itens como “insuficientes” mas sem detalhar o motivo da perda de nota. “Eles dizem que foi insuficiente, mas não explicam o que estava errado. Assim fica impossível entender onde a pontuação caiu”, disse.
O bloco entrou com recurso, mas não obteve retorno efetivo. Ailton afirma que nenhum recurso apresentado pelos blocos não classificados alterou o resultado final. “Não teve resposta, não teve justificativa. A impressão que fica é que nem olharam os recursos”, declarou. Segundo ele, a etapa recursal, que seria a última instância de diálogo, termina sem explicações públicas.
O impacto da exclusão vai além da programação do Carnaval. Ailton avalia que a decisão frustra trabalhadores da cultura e o público da Ceilândia, que já esperava o desfile. Ele também critica o que chama de valorização de uma cultura mais globalizada em detrimento de manifestações tradicionais. “Frevo, samba, maracatu e outros ritmos brasileiros acabam ficando em segundo plano”, afirmou.
Situação semelhante foi vivida pelo Suvaquinho da Asa, bloco infantil ligado ao tradicional Suvaco da Asa e com mais de uma década de atuação. O presidente Pablo Feitosa diz que a reação inicial foi de incredulidade. “Vimos passar blocos que são festivais privados e outros que surgiram de uma hora para outra, enquanto blocos com 10, 20 e 30 anos ficaram de fora”, disse.
Segundo Pablo, desde a adoção do modelo de editais, o Suvaquinho sempre foi contemplado por cumprir critérios como tempo de existência, matriz carnavalesca e acessibilidade. Em 2026, embora utilizando o mesmo edital do ano anterior, a pontuação caiu sem explicação clara. “Trabalhamos com o frevo, patrimônio imaterial da humanidade e com acessibilidade desde a criação. Não sabemos onde perdemos pontos”, afirmou.

Bloco Menino de Ceilândia
Reprodução/Instagram

Suvaquinho da Asa
Reprodução/Agência Brasília

Tradicional bloco “Divinas Tetas” agita multidão
Fotos: Matheus Veloso/Metrópoles @mvelosofoto

Tradicional bloco “Divinas Tetas” agita multidão
Matheus Veloso/Metrópoles @mvelosofoto
Resistência
Apesar de não receberem o apoio financeiro do governo do Distrito Federal, alguns blocos vão sair, mas com estrutura reduzida.
O presidente do Suvaquinho conta que o bloco vai sair no dia 7 de fevereiro, às 10 horas, no estacionamento entre a Funarte e Torre de TV, mas relata o cancelamento de oficinas, brinquedos, atividades artísticas e atrações voltadas às crianças, todas gratuitas. “Não conseguimos entregar o conforto, a segurança e a parte artística que sempre fizeram parte do bloco”, disse.
O Menino de Ceilândia também vai sair no dia 15, mas com um trajeto menor e sem grande estrutura: “A gente vai fazer um pequeno trajeto, sem estrutura, sem banheiro químico, sem tenda, sem proteção nenhuma. Será um percurso curto pelas ruas de Ceilândia, só para registrar a nossa passagem no Carnaval de 2026, diante dessa decisão da Secretaria de nos deixar fora da classificação, apesar de todo o trabalho que a gente vem realizando há muito tempo”.
Divinas Tetas fora da Folia
A crítica à burocratização do Carnaval também apareceu na decisão do Bloco das Divinas Tetas de não desfilar em 2026. Em nota, o coletivo anunciou um “carnaval sabático” e classificou a pausa como um gesto político.
O texto aponta um modelo de política cultural considerado “burocrático, opaco e distante do diálogo com os blocos”, além de contrário aos princípios que moldaram o Carnaval de rua do DF.
“Acreditamos que o carnaval deve ser organizado de acordo com a vontade coletiva de ocupar as ruas com alegria, música, arte e liberdade. É assim que a gente pretende seguir: com coerência, transparência, respeito e carinho à nossa trajetória e também à história do Carnaval do DF”, diz o bloco.
O outro lado
Do lado do governo, o secretário de Cultura do DF, Claudio Abrantes, afirma que os critérios do edital são objetivos e conhecidos previamente. Segundo ele, itens como proposta artística, data, horário e organização pesam diretamente na pontuação. “Não existe vaga cativa. Trata-se de uma competição”, declarou.
Abrantes reconhece que blocos consolidados ficaram de fora, mas destaca que o recurso é limitado e que o número de vagas e o valor do incentivo vêm crescendo desde 2023.
Para o secretário, a disputa é saudável e reflete o surgimento de novos blocos já bem estruturados. Ele também afirma que não há mecanismos de proteção para blocos tradicionais. “A competição pública não pode ter reserva de mercado”, disse.
O secretário também deixa claro que apesar de fora da contemplação do edital, incentiva que os blocos saiam às ruas.
“É uma forma de melhorar o portfólio. Isso movimenta o Carnaval, aumenta a oferta para a população, além de fomentar a economia criativa e empregos diretos e indiretos”, completa.