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No Brasil, as pessoas envelhecem precocemente e mal

O médico Alexandre Kalache considera que, no Brasil, as pessoas envelhecem rápido e mal. Segundo ele, isso foi provado na pandemia quando ocorreu uma alta mortalidade entre pessoas com menos de 60 anos por conta de doenças crônicas como obesidade, diabetes e hipertensão.

Um estudo internacional publicado na revista Plos One em agosto mostra que o envelhecimento funcional dos brasileiros começa, em média, uma década antes que o dos europeus. O trabalho revela que, no Brasil, a capacidade para realizar tarefas entra em declínico aos 70 anos, enquanto na Europa, o processo se inicia aos 80.

A explicação, segundo Kalache, passa pelas condições de vida da população, que incluem acesso a cuidados de saúde, alimentação de qualidade e exercícios físicos. Ele defende políticas públicas e letramento em relação à longevidade para que os brasileiros envelheçam com mais qualidade de vida.

Kalache, que esteve em Brasília nesta sexta-feira (6/11) para lançar o livro A revolução da longevidade, considera urgente que o Brasil estruture políticas públicas intersetoriais que privilegiem a autonomia e a independência dos idosos, bem como o apoio às famílias. No início do atual mandato do presidente Luís Inácio Lula da Silva, os dois chegaram a conversar sobre o assunto.

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do Metrópoles Saúde e Ciência

“As famílias não vão dar conta. Quando eu era criança, você tinha poucas pessoas idosas e uma porção de pessoas disponíveis em casa para assumir o cuidado delas. Dentro da revolução da longevidade, há duas urgências: a necessidade de apoiar as famílias com o cuidado e a de formar profissionais de saúde que entendam sobre envelhecimento”, afirma Kalache que, assim como Lula, tem 81 anos recém-completados.

Em relação ao Ministério dos Idosos – que estaria entre as novidades para o quarto mandato de Lula -, o especialista sugere que a pasta seja batizada de Ministério da Longevidade, termo, que segundo ele, seria mais adequado para incluir toda a sociedade nas discussões e não apenas os 60+.

Leia a entrevista:

Metrópoles: Que desafios o envelhecimento demográfico traz para a área de saúde? Se a nossa população está vivendo mais, surgem outras questões de saúde como prioridade. O que precisa ser adaptado no nosso sistema de saúde?

Temos duas urgências. A primeira é percebermos que as famílias não vão dar conta. Quando eu era criança, tinha poucas pessoas idosas na família e uma porção de pessoas disponíveis para cuidar delas. As mulheres não tinham entrado no mercado de trabalho e era fácil absorver o cuidado com os mais velhos dentro da família. Você sempre tinha uma mulher disponível para cuidar. Era até comum que uma das mulheres, uma das filhas, fosse escolhida para ficar solteira, para assumir essa incumbência de cuidar dos pais.

Os desafios médicos também mudaram. Agora os desafios são as doenças crônicas, doenças que não são curáveis, mas que podem ser prevenidas. Precisamos dar uma ênfase grande no curso de vida, pois os riscos de doenças crônicas aumentam de acordo com os hábitos de vida. Os riscos de desenvolver diabetes, hipertensão ou um problema cardiovascular vão se acumulando ao longo da vida.

Você pega uma pessoa de 90 anos que teve uma vida confortável, que pôde comer bem, teve acesso a uma dieta saudável, à atividade física, que pôde se cuidar e fazer check ups. Essa pessoa de 90 anos, que mora no Jardim Paulista ou no Alto Leblon (bairros nobres de São Paulo e do Rio de Janeiro, respectivamente), ela tem um envelhecimento completamente diferente de quem tem um nível educacional baixo, de quem nunca teve um emprego decente, que tem renda limitada.

Metrópoles: O senhor considera que o envelhecimento é uma questão do Estado? Que um bom envelhecimento está relacionado a políticas públicas e não apenas a escolhas individuais?

A responsabilidade é do Estado, e isso está escrito no Estatuto do Idoso. No Brasil, se envelhece precocemente, o que é fruto de uma somatória de eventos ao longo da vida. Você viu isso durante a pandemia. Quantas pessoas morreram antes do grupo de risco de 60+? Morreram aos 52, 54 porque já tinham diabetes, ou um problema cardiovascular, hipertensão, obesidade…Essas pessoas que, obviamente, são pessoas pobres, morreram precocemente de Covid por causa da falta de políticas públicas. Você precisa de políticas de Estado, políticas públicas centradas na cultura do cuidado.

Metrópoles: É a primeira vez que um octagenário está na Presidência da República. O presidente está falando sobre a possibilidade da criar um ministério voltado para os idosos. Que pontos o senhor acredita serem essenciais para a pasta?

Nós vimos cenas comoventes de mulheres e homens fracos, frágeis, em cadeiras de roda ou carregados pelos netos, vibrando e agradecendo pela oportunidade de votar, de deixar um legado. Nunca nós tivemos tantos sexagenários e octagenários votando. Tenho orgulho de dizer que fui um dos protagonistas para fazer essa campanha do Vote 70, mais eu não me cansei. Acredito que o presidente se comoveu com iss.

Acho bom, vamos festejar. Mas esse ministério tem que estar empoderado, tem de ter um orçamento decente, ter o poder do Executivo, ou seja, do presidente Lula, de chegar ao Ministério da Educação, do Trabalho, da Cultura, de Previdência, da Seguridade Social com políticas articuladas como proposta de governo. Se isso não for feito, não adianta.

Além disso, o ministério deveria ser o da Longevidade, porque se for o ministério das pessoas idosas já por si não tem impacto. Por quê? Porque o brasileiro é idadista. Ele não se vê como idoso. Principalmente, o homem.

Serviço: A revolução da longevidade, Alexandre Kalache
Dia: 10/11
Horário: 19h
Local: Livraria Circulares
SHCGN CRN 714/715
Asa Norte, Brasília, DF

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