Uma menina de 5 anos também foi vítima de intoxicação por cloro na piscina da academia C4 Gym, na zona leste de São Paulo, e enfrenta complicações no sistema respiratório. A criança havia sido matriculada na academia por recomendação médica para melhorar os seus problemas de saúde, mas vem apresentando piora no quadro.
A informação foi revelada pelo delegado Alexandre Bento durante uma coletiva de imprensa realizada nesta quinta-feira (12/2) no 42° Distrito Policial (Parque São Lucas). Segundo Bento, desde que a garota começou a fazer aulas de natação na academia, os médicos observaram algo de errado com a saúde dela.
Após a morte por intoxicação da professora Juliana Faustino Bassetto, de 27 anos, ganhar repercussão, o profissional de saúde da menina emitiu um laudo de intoxicação por cloro. Conforme o documento, o produto químico era o responsável pelo envenenamento da criança.
“Desde que ela começou a fazer natação, ela vem apresentando uma piora no seu quadro do sistema respiratório. E, com a divulgação desses fatos, o médico claramente identificou o problema e emitiu um laudo apontando essa intoxicação com cloro como sendo o problema que está envenenando uma criancinha de 5 anos que se matriculou na academia para melhorar os seus problemas de saúde”, criticou o delegado.
Morte após aula de natação
- No último sábado (7/2), uma aluna morreu e ao menos outras seis pessoas foram internadas em estado grave após nadarem na piscina da C4 Gym, no Parque São Lucas, na zona leste de São Paulo.
- Juliana Faustino Bassetto, de 27 anos, sofreu uma parada cardíaca após a aula de natação.
- Ela estava acompanhada do marido, Vinicius de Oliveira, de 31 anos, que também sentiu mal-estar na piscina.
- Eles comunicaram o professor responsável e, depois da aula, foram, por conta própria, ao Hospital Santa Helena, de Santo André, no ABC paulista.
- No hospital, Juliana não resistiu. O marido dela foi internado em estado grave.
- O fato foi registrado em boletim de ocorrência no 6º Distrito Policial de Santo André.
- Há ainda o registro de ao menos outra pessoa internada em estado grave no Hospital Vila Alpina, na zona leste de São Paulo.
- O menor de idade foi levado pelo pai ao hospital e ele também nadou na piscina da academia, onde apresentou dificuldade de respirar.
- Aluna de 29 anos foi internada na UTI após sentir náuseas, vômitos e diarreia.
Carga de cloro para uma semana
De acordo com o delegado do caso, as especificações técnicas da água da piscina apontam que “a carga de cloro que [os proprietários] usavam em um dia era para uma semana”, como forma de maquiar as condições e para que a piscina nunca fosse fechada.
“O cheiro do cloro permanece muito forte, porque há narrativas nos autos de que eles chegavam a usar, num dia na academia, uma medida que normalmente, para esse tipo de piscina, dentro do padrão, é utilizado em uma semana, a carga de cloro que eles usavam em um dia, é usada em uma semana numa piscina desse tipo, e eles faziam tudo isso visando o lucro máximo, para que a piscina nunca fosse fechada”, afirmou o delegado.
A polícia afirma que as ações mostram que os sócios visavam apenas o lucro máximo e não se importavam com alunos e funcionários. Eles são investigados pela Polícia Civil.
Sócios da academia indiciados
Os três proprietários da academia foram indiciados por homicídio por dolo eventual após a intoxicação dos alunos na piscina do estabelecimento. De acordo com a polícia, seis pessoas foram afetadas, além da professora morta.
Cesar Bertolo Cruz, Celso Bertolo Cruz e Cezar Miquelof Terração prestaram depoimento e, segundo o delegado do caso, há indícios de que o manobrista Severino José da Silva apenas cumpria ordens dos contratantes. Severino recebia orientações por meio de mensagens via WhatsApp, sobre a aplicação de produtos químicos na piscina, mesmo sem possuir qualificação técnica para o procedimento.
Para Alexandre Bento, o manobrista “foi manipulado” por Celso e não deve responder criminalmente pelas intoxicações. “O Severino apenas foi utilizado, ele foi manipulado pelos sócios da empresa e sequer pode ser responsabilizado pelo homicídio culposo. O entendimento é que ele não responderá por nenhum crime”, explicou.
Os sócios foram indiciados e a polícia solicitou a prisão temporária dos suspeitos por homicídio doloso. A corporação aguarda decisão judicial.
“Impossível de respirar”
Um dos alunos que estava na aula de natação relatou ao Metrópoles o que aconteceu enquanto estavam na piscina. O advogado Eduardo Esteves Rossini, de 37 anos, disse que funcionários da academia C4 Gym fizeram uma mistura de cloro em um balde e deixaram ao lado da piscina.
“Jogaram alguma coisa que deu reação química. Sentimos queimar os olhos, nariz, garganta e pulmões. Ficou impossível de respirar”, afirmou.
Segundo Rossini, quem estava mais próximo ao balde sofreu mais — a mulher que morreu, o marido dela e o adolescente, que foram internados em estado grave. “Eles inalaram mais”, disse.
O advogado procurou atendimento médico na ocasião e precisou retornar ao hospital, nessa segunda-feira (9/2), devido a uma piora no quadro de saúde. “Acordei com a garganta muito inflamada e expelindo um pouco de sangue. Estou tomando algumas medicações e fazendo exames”, relatou.
Vídeo mostra desespero de alunos
Câmeras de segurança flagraram o momento em que alunos e instrutores passam mal durante a aula de natação na piscina da academia. Nas gravações (veja abaixo), é possível ver as vítimas sendo retiradas da água com dificuldades de movimento e respiração.
Outra câmera filmou Juliana sendo levada para a recepção da academia, após ser retirada da piscina. Ela senta no chão, coloca a mão no peito, faz sinal como se estivesse tonta e parece tossir.
Em nota, a direção da Academia C4 Gym destacou que “lamenta profundamente o ocorrido em sua unidade” e que “está colaborando integralmente com as autoridades competentes”.