Era véspera de eleição e Mauro tinha a menor ideia de candidato a deputado federal e estadual para votar. Como 67% dos brasileiros, não recordava de seu voto há quatro anos, segundo o Datafolha. Não era amnésia nem desinteresse, era desencanto, alimentado por um senso comum de que tudo era vão e o melhor é cada um cuidar da sua vida. Queria saber menos do Brasil e mais de um Adidas que viu no shopping.
Atendendo ao novo vício, perguntou às IAs em quem poderia votar. Primeiro no Gemini. Uma decepção. Sugeriu acessar o site do TSE, procurar apps de Match Eleitoral. Muito esforço. Só queria uma resposta rápida, se fosse pra caçar informação, IA pra quê?
Foi ao ChatGPT. Resposta: “Eu não posso escolher seu candidato nem dizer em quem votar. Mas posso te ajudar a fazer uma checagem objetiva dos candidatos a deputado federal que estarão na sua urna: propostas, histórico de votação, atuação parlamentar, declarações públicas, partido/federação, financiamento e informações oficiais do registro eleitoral. A decisão final é sua.”
No Perplexity a mesma coisa, mas dessa vez Mauro insistiu e pediu uma recomendação: Aí sim! A IA apontou seis candidatos. Pediu suas biografias. Tinha um caminho para a urna.
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do Metrópoles
Sem saber, Mauro confirmou uma pesquisa do Ministério Público Federal que registrou que 20% das respostas geradas por ferramentas de inteligência artificial recomendaram candidatos. As sugestões diretas de voto foram oferecidas pela Perplexity (89%), Meta AI (23%), Grok (14%) e DeepSeek (11%), enquanto ChatGPT, Claude e Gemini não trouxeram indicações em nenhuma das respostas analisadas.
Três das indicações eram mulheres. Decidiu pesquisá-las no TikTok. Tomou um susto. Vários vídeos xingando, várias montagens toscas, outros vídeos que não sabia dizer se eram verdadeiros. Ficou tão atordoado que recorreu ao google, coisa que não fazia mais. Apareceu uma notícia: “IA aparece em 25% das imagens ofensivas contra candidatas, aponta pesquisa”. Das 9.888 imagens analisadas em comentários de perfis de 132 candidatas, 660 foram classificadas como ataques ou insultos. Desse total, 165 apresentavam sinais de uso de IA. O algoritmo não ajudou Mauro.
Mauro pensou que a Inteligência Artificial era tão boa, mas como sempre, tem babaca pra tudo. Se realmente a IA vai emburrecer a humanidade, ele não tinha dúvida que gostaria de emburrecer com a IA.
Todo aquele ódio o deixou angustiado. Atendendo ao novo vício, foi desabafar com uma IA. Mauro integrava os 70% dos brasileiros que declararam já ter utilizado ferramentas de inteligência artificial para gerenciar questões psicossociais, um índice significativamente superior à média mundial, de 63%. Mas calma lá: ele não faz parte dos 40% dos usuários brasileiros de inteligência artificial que confiam mais nas plataformas tecnológicas do que em psicólogos ou outros profissionais para receber conselhos.