O câncer de pâncreas está entre os tumores mais letais existentes justamente porque costuma evoluir em silêncio. Localizado na região do abdômen, o órgão não denuncia facilmente quando algo vai mal. Ainda assim, o corpo pode emitir sinais de alerta, muitas vezes sutis e confundidos com problemas digestivos comuns.
A gastroenterologista Pâmela Oliveira, membro titular da Federação Brasileira de Gastroenterologia (FBG), explica que os sintomas iniciais raramente são específicos. Indigestão persistente, sensação de estômago cheio mesmo comendo pouco e perda de apetite frequente estão entre as queixas mais relatadas.
“O grande perigo é que tudo parece banal no começo. Mas, a perda de peso sem dieta ou mudança de rotina é um sinal de alerta importante e nunca deve ser ignorado”, afirma.
Dor que engana
A dor abdominal ligada ao pâncreas costuma ser confundida com gastrite ou refluxo — isso acontece porque o órgão fica atrás do estômago. A diferença, de acordo com Pâmela, é que a dor gástrica geralmente varia com a alimentação, enquanto a dor pancreática tende a ser contínua e profunda.
Outro ponto de atenção é a dor nas costas. Quando tem origem pancreática, ela pode surgir em “barra”: começa na parte superior do abdome e irradia para trás. Se for persistente, sem relação com esforço físico, e se aliviar ao inclinar o corpo para frente, merece investigação.
O mau funcionamento do pâncreas também pode afetar a digestão de gorduras. Nesses casos, as fezes podem ficar claras, gordurosas, com cheiro forte e até boiar no vaso sanitário. Esse é considerado um sinal relativamente específico de alteração pancreática.
A icterícia, pele e olhos amarelados, também entra na lista de sinais de alerta. Ela pode surgir quando um tumor comprime a via biliar. Muitas pessoas associam a urina escura à desidratação e demoram a procurar avaliação.
“O emagrecimento sem causa e a icterícia leve são sintomas frequentemente ignorados. Às vezes, o paciente até comemora a perda de peso sem perceber que há algo errado”, diz Pâmela.
Sintomas do câncer de pâncreas
- Dor abdominal contínua.
- Alterações nas fezes.
- Perda de peso sem explicação.
- Cansaço intenso.
- Icterícia.
- Dor nas costas sem causa aparente.
Por que o diagnóstico é difícil
O oncologista clínico Rodrigo Canto Nery, membro associado da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (Sboc), destaca que a localização do pâncreas dificulta a detecção precoce. Tumores iniciais raramente provocam dor intensa ou sinais claros.
Nos estágios iniciais, podem surgir apenas desconforto abdominal leve, estufamento, má digestão, cansaço e pequenas variações de peso. Como esses sintomas são comuns no dia a dia, muita gente demora a procurar atendimento.
Além disso, não existe exame de rastreamento indicado para a população geral. Tomografia, ressonância e ultrassom endoscópico são solicitados apenas quando há suspeita clínica ou em grupos de alto risco.
Diabetes recente pode ser pista
O risco é maior em pessoas acima dos 60 anos, fumantes, obesos, com histórico familiar da doença, pancreatite crônica, diabetes de longa duração ou síndromes genéticas específicas. O tabagismo é um dos principais vilões e pode dobrar ou triplicar a chance de desenvolver o câncer de pâncreas. A obesidade, sobretudo abdominal, também contribui por estar associada à inflamação crônica e alterações metabólicas.
O surgimento recente de diabetes após os 50 anos, sem histórico familiar, pode ser um dos sinais de alerta — o tumor pode interferir na produção de insulina. Ainda assim, o médico ressalta que a maioria das pessoas com diabetes não tem câncer, é apenas um fator que merece atenção clínica.
Não existe prevenção totalmente garantida contra o câncer de pâncreas, mas é possível reduzir o risco. Parar de fumar, manter a alimentação equilibrada, praticar atividade física, controlar o peso, tratar adequadamente a diabetes e evitar excesso de álcool estão entre as principais medidas.
Quando procurar ajuda
Sintomas digestivos persistentes por mais de duas semanas já justificam avaliação médica. No câncer de pâncreas, o tempo faz diferença. Quando identificado no início, há maior chance de cirurgia curativa antes que o tumor atinja vasos importantes ou outros órgãos.