Quando Eloah tinha apenas 1 ano de idade, a mãe começou a perceber que algo não estava bem. A criança passou a se alimentar menos, teve episódios de vômito e começou a apresentar suor intenso e respiração ofegante. O que parecia inicialmente um problema respiratório acabou revelando uma doença cardíaca grave.
“Uma noite ela começou a suar excessivamente, a ponto de molhar a roupa e o travesseiro, e a respiração ficou mais ofegante. Ali, vi que tinha algo errado”, conta Isabelle Peixoto, de 25 anos.
No hospital, exames mostraram que o coração da criança estava muito aumentado. O diagnóstico foi de miocardiopatia dilatada, uma condição em que o músculo cardíaco perde força e não consegue bombear o sangue de forma eficiente.
Segundo a cardiologista pediátrica Julianne Avelar, responsável pelo caso no Hospital e Maternidade Sepaco, em São Paulo, a doença pode evoluir rapidamente em crianças pequenas.
“A miocardiopatia dilatada é uma doença em que o músculo do coração se encontra enfraquecido e dilatado, reduzindo sua capacidade de bombear o sangue de forma eficiente. Em crianças, essa condição pode evoluir rapidamente”, explica.
Diagnóstico e momentos críticos
Após o diagnóstico, os médicos alertaram a família sobre a gravidade do quadro. Em pouco tempo, Eloah apresentou episódios de parada cardíaca.
“A Eloah acabou parando. Foram três sequências. E quando voltava, apresentava arritmia grave. Foi bem assustador ver os médicos reanimando minha filha”, relembra a mãe.
Diante da instabilidade do quadro e da falha dos tratamentos convencionais, em março de 2025, a equipe médica decidiu iniciar o suporte por ECMO, uma tecnologia que pode assumir temporariamente as funções do coração e dos pulmões.
A decisão ocorre quando o paciente não responde mais às medidas tradicionais de suporte. “No caso da Eloah, identificamos persistência de instabilidade hemodinâmica e risco iminente de colapso circulatório. Nessa situação, a ECMO passa a ser uma estratégia de resgate”, explica Julianne.
Como funciona a ECMO?
A ECMO, sigla para oxigenação por membrana extracorpórea, funciona como uma circulação artificial temporária. O sangue é retirado do corpo do paciente, passa por um equipamento que realiza a oxigenação e remove o gás carbônico e depois retorna ao organismo.
“Em pacientes com falência cardíaca utilizamos principalmente a modalidade venoarterial, que oferece suporte tanto para o coração quanto para os pulmões, permitindo que esses órgãos descansem”, afirma a médica.
O recurso é considerado um dos mais avançados da medicina intensiva e está disponível em poucos hospitais do país, já que exige equipe especializada e monitoramento contínuo.
Recuperação e nova etapa do tratamento
Eloah permaneceu cerca de duas semanas conectada ao equipamento durante a primeira fase do tratamento. “Foram 14 dias em ECMO e todos esses dias foram tensos. Mas eu vi minha filha abrindo os olhos em ECMO, brincando em ECMO, reconhecendo a minha voz”, relata Isabelle.
Depois de uma melhora inicial, a criança voltou a apresentar piora do quadro e precisou novamente do suporte.
“Ela ficou por 25 dias em ECMO com o peito aberto. Os médicos precisavam tirá-la da ECMO, mas ela não suportava ficar sem o aparelho”, conta Isabelle.
Após esse período, Eloah passou a utilizar um dispositivo chamado Berlin Heart, um coração mecânico que ajuda a manter a circulação enquanto aguarda um transplante. “Hoje, com 2 anos, ela aguarda um coração novo e sobrevive com esse órgão mecânico, que a sustenta e a mantém viva”, diz a mãe.
Para Isabelle, a tecnologia foi decisiva para que Eloah tivesse uma nova chance. “Eu diria que a ECMO salvou a vida da minha filha por duas vezes. Se não fosse por esse suporte, ela não teria resistido”, destaca.
Desde que a filha ficou doente, Isabelle deixou o trabalho como enfermeira para se dedicar integralmente aos cuidados da criança enquanto aguardam o transplante cardíaco.