Abrir o celular para conferir uma pesquisa eleitoral, acompanhar uma discussão e, pouco depois, voltar às redes para procurar tudo de novo. Na expectativa pelo segundo turno, marcado para 25 de outubro, o acompanhar das eleições pode estar ocupando um espaço extenso do tempo e da mente dos eleitores.
Mas, o problema não está em se interessar por política, nem se informar sobre o assunto, mas sim em perceber o quanto o exagero pode prejudicar o sono, a concentração e os relacionamentos. Nas redes, a expressão “psicose política” tem sido bastante utilizada para descrever um estado de espírito diante das eleições, embora muita gente confunda preocupação eleitoral com manifestações clínicas.
A psicóloga e palestrante Handreza Oliveira, especialista em terapia cognitivo-comportamental (TCC) e análise do comportamento aplicada (ABA), explica que ansiedade, irritação e dificuldade de aceitar opiniões contrárias não devem ser confundidas com psicose.
“A expressão ‘psicose política’ é inadequada porque usa um conceito clínico para tentar explicar reações de ansiedade, estresse ou simples paixão política”, afirma.
Segundo Handreza, a psicose envolve alterações importantes na percepção da realidade, com manifestações como delírios e alucinações, e perda de contato com a vida real. A intensidade de uma opinião política ou a quantidade de notícias consumidas, isoladamente, não permite diagnosticar uma pessoa com psicose.
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do Metrópoles Saúde e Ciência
Política x ansiedade
A incerteza sobre o resultado pode levar a uma inquietação constante. O comportamento começa a preocupar quando o consumo de conteúdos se repete sem trazer informações novas, aumenta a tensão e ocupa o tempo das obrigações ou do descanso. A pessoa pode perceber que termina a leitura mais angustiada, mas ainda assim sente dificuldade de interromper o hábito.
“A diferença não está necessariamente na quantidade de interesse político, mas na maneira como esse interesse afeta a vida cotidiana e seus relacionamentos”, ressalta a psicóloga.
A especialista também diferencia a concentração intensa em um assunto dos pensamentos repetitivos de preocupação. Em algumas situações, o que a pessoa chama de hiperfoco pode ser ruminação: voltar continuamente aos mesmos receios, rever debates e reler notícias na tentativa de aliviar o medo do que poderá acontecer.
Por que a discordância parece uma ofensa?
As discussões podem ganhar um peso pessoal porque as escolhas políticas estão relacionadas aos valores, às experiências e à maneira como cada pessoa se reconhece. Segundo a neuropsicóloga Priscila Patrícia, o questionamento de uma preferência pode ser interpretado como um ataque à própria identidade.
“Assim, tendemos a dar mais credibilidade às notícias que confirmam nossas opiniões e a questionar as que são contrárias a elas”, explica.
Handreza aponta que, quando a discordância se transforma em rejeição, raiva ou desconfiança em relação às pessoas do grupo adversário, é mais adequado falar em polarização afetiva. O conflito deixa de se concentrar nas propostas e passa a envolver julgamentos sobre o caráter de quem pensa diferente.
Priscila acrescenta que acompanhar discussões agressivas nas redes, mesmo sem participar, pode aumentar a ansiedade e a irritabilidade. Nas relações próximas, os sinais de desgaste incluem brigas frequentes, desrespeito, afastamento e dificuldade de ouvir.
“Quando percebermos que a conversa está ficando agressiva, podemos mudar de assunto ou interrompê-la”, orienta.
Como participar e preservar o mental
A recomendação de Priscila é organizar o acompanhamento das eleições para que a informação tenha espaço no dia sem ocupar todas as atividades. Entre as medidas sugeridas pelas especialistas estão:
- Definir horários para o noticiário: reservar momentos para acompanhar as atualizações e observar se as consultas estão se repetindo sem necessidade.
- Escolher fontes confiáveis: conferir as informações antes de compartilhar e evitar a circulação de notícias falsas.
- Reduzir as interrupções: silenciar grupos e desativar notificações quando os conteúdos aumentarem a tensão.
- Estabelecer limites nas conversas: interromper discussões que envolvam agressividade ou desrespeito.
- Manter outras atividades: preservar o sono, o trabalho, o convívio social e os momentos de lazer.
Para quem sente culpa ao se afastar temporariamente das redes, Priscila reforça que a participação política não depende de acompanhar cada atualização.
“Reduzir o acompanhamento das eleições não significa ser omisso ou deixar de se importar com a sociedade, mas encontrar um equilíbrio entre se manter informado e preservar a própria saúde emocional”, afirma.
Quando buscar ajuda profissional
A atenção deve aumentar quando o sofrimento persiste e a pessoa não consegue retomar a rotina. Insônia frequente, dificuldade de concentração, conflitos recorrentes e tentativas frustradas de parar de checar notícias são motivos para procurar apoio.
“Na psicoterapia, podem ser utilizadas estratégias da terapia cognitivo-comportamental (TCC) para identificar pensamentos que aumentam a ansiedade, avaliar interpretações catastróficas, desenvolver tolerância à incerteza e modificar comportamentos de checagem que mantêm o sofrimento”, explica Handreza.
A psicóloga ressalta que alucinações, crenças delirantes, extremismos ou pensamento muito desorganizado são sinais diferentes da preocupação eleitoral e exigem avaliação profissional prontamente.
Para atravessar a expectativa pelo resultado, os especialistas recomendam reconhecer os próprios sentimentos, manter as atividades habituais e compreender que nem todos os acontecimentos estão sob controle individual.