A Arena BRB Mané Garrincha pediu que a Justiça do Distrito Federal intime a empresa Prospecto Consultoria Empresarial S.A, pertencente a Antonio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, na Papuda – onde o lobista está preso desde setembro de 2025.
O pedido foi feito em 19 de fevereiro e diz respeito a cobrança de dívida no valor de R$ 67,6 mil decorrente do não pagamento do aluguel de um camarote no estádio, além de quebra de acordo.
Segundo o processo, após várias tentativas frustradas de citar a empresa em um endereço em Taguatinga, no Distrito Federal, advogados da Arena BRB resolveram pedir a intimação oficial na Papuda.
Antônio Carlos Camilo é considerado um dos principais operadores do esquema de descontos indevidos do INSS e teria utilizado a empresa citada no processo para repassar propina a integrantes do Instituto Nacional da Seguridade Social.
O caso
Entre os meses de julho e agosto de 2025, o Careca do INSS também teria deixado de pagar aluguel do mesmo camarote, o que o levou a firmar um acordo de renegociação da dívida.
Logo após essa negociação, contudo, Antonio e a Prospecto – cujo CNPJ consta no contrato de uso, também deixaram de arcar com o pagamento do aluguel dos meses de setembro e outubro, voltando à situação de inadimplência com a Arena BRB.
Diante da situação, responsáveis pelo estádio notificaram os envolvidos e encaminharam novo boleto para pagamento, com vencimento em 23 de novembro de 2025. Por falta de quitação do débito, advogados do complexo ajuizaram outra ação contra o Careca do INSS.
A ação teve início em 5 de dezembro. Vinte dias depois, um oficial de Justiça foi até o Bloco V, do Complexo Penitenciário da Papuda, para intimar o réu. A área onde Antonio está é destinada à custódia de pessoas que não podem permanecer em contato com o restante da população carcerária, em razão de condições pessoais e da natureza dos fatos que levaram à prisão.
Após sucesso na citação do réu, a Arena BRB solicitou também a intimação da Prospecto Consultoria na pessoa de Antonio Carlos Camilo, na Papuda. O pedido foi feito após outras tentativas frustradas de citação da empresa.
Em uma decisão interlocutória publicada nessa terça-feira (24/2), o juiz responsável pelo caso indeferiu o pedido de intimação no presídio. “Desde o Código Civil de 1916, a pessoa jurídica não se confunde com os seus sócios, associados, instituidores ou administradores”, declarou o magistrado.
“Se a pessoa jurídica não se confunde com seus sócios, não é adequado nem pertinente procurar pela empresa no endereço daqueles que compõem o quadro societário. Mesmo diante da excepcionalidade da citação por edital, não se pode, em nome dessa característica, ofender norma fundamental e intrínseca do arcabouço jurídico”, finalizou.
O processo ainda corre na Justiça.
Mais de um calote
Em julho de 2025, a coluna Tácio Lorran revelou um primeiro processo envolvendo a Arena BRB e o Careca do INSS. À época, Antonio também deixou de pagar o aluguel do camarote em maio de 2025 e teria concordado em rescindir o contrato, que iria até fevereiro de 2027, antecipadamente. O valor total da dívida chegou em R$ 60,7 mil.
O camarote do Careca do INSS era o de número 309. O espaço fica na ala sul do estádio, atrás do gol. O lobista pagava R$ 11.188,89 por mês de aluguel.
Em junho do mesmo ano, a coluna revelou que o Careca do INSS bancou camarotes no show do Red Hot Chilli Peppers, em Brasília, para autoridades do INSS e do Ministério da Previdência Social. Entre os participantes, estava o então secretário-executivo da pasta, Adroaldo Portal (PDT) – que, oito meses antes do evento, abriu a porta de seu gabinete no ministério para o lobista.
O show ocorreu em 7 de novembro de 2023, na Arena BRB Mané Garrincha. Foi a primeira apresentação do Red Hot Chilli Peppers na capital federal, em 40 anos da banda. A presença de autoridades do INSS e do Ministério da Previdência no espaço foi confirmada por Adroaldo Portal. Ele também assegurou a companhia do Careca do INSS no camarote, mas alegou desconhecer, porém, que ele bancou os ingressos. A coluna apurou que um camarote com 50 convidados custa cerca de R$ 50 mil, fora o custo de aluguel do espaço.
“Eu recebi o convite do INSS. Foram distribuídos alguns convites, e eu recebi”, explicou Adroaldo Portal, em conversa com a coluna. À época do show, ele era secretário do Regime Geral de Previdência Social. “Era um procedimento até então relativamente comum: distribuição de convites. E eu fui sim. E eu não sei te dizer a procedência do custeio do convite”, prosseguiu o secretário-executivo.
Procurado, o INSS informou que o recebimento de presentes, ingressos, ou qualquer vantagem é proibido a qualquer servidor público, por força da lei de conflitos de interesse (Lei 12.813/2013). “O INSS reafirma seu compromisso com a probidade administrativa, caso algum servidor ou dirigente tenha ferido tal dever, deverá ser responsabilizado com a penalidade exposta na lei, demissão”, assinalou. O Ministério da Previdência, por sua vez, não se manifestou.