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do laboratório das Farc na selva colombiana para o DF

A marca impressa em alto-relevo nos blocos retangulares de pó branco não deixou dúvidas para investigadores da Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) que participaram de uma das maiores apreensões de drogas do ano: trata-se da temida “marca do golfinho”. Desta vez, a rota da droga colombiana cruzou milhares de quilômetros pelo coração da América Latina até ser interrompida em solo brasileiro.

Uma grande operação desencadeada pela 32ª Delegacia de Polícia (Samambaia Sul), batizada de Operação Acompanhamento Final, desmantelou a conexão logística que traria mais de R$ 4 milhões em entorpecentes para abastecer o mercado consumidor da capital da República, nessa quinta-feira (1º/10).

Gravada sobre a pasta-base e os tijolos de cocaína refinada nas profundezas das florestas tropicais da Colômbia, a figura do mamífero marinho funciona como um selo de denominação de origem e controle de qualidade do crime organizado transnacional. A marca pertence às Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).

Nas cozinhas clandestinas sul-americanas,  o golfinho esculpido nos tijolos de cocaína assegura um grau de pureza superior a 90%, garantindo que a mercadoria não foi adulterada ao longo da cadeia logística antes de atingir os grandes centros urbanos.

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do Metrópoles

Raio-X da apreensão

• Entorpecentes: 160 kg de cocaína pura e ~15 kg de skunk
• Valor estimado: R$ 4 milhões
• Material Bélico: 1 espingarda cal. 20 (numeração raspada)
• Frota Apreendida: 1 caminhão de grande porte + 2 carros de apoio
• Local da Abordagem: Recanto das Emas
• Destino do Carregamento: Depósito clandestino em Samambaia

“Delfines de las Farc”

Para compreender a origem da substância e o peso simbólico do desenho nos tijolos de pó, é preciso olhar para o histórico do conflito armado colombiano. As Farc surgiram em meados da década de 1960 como a maior e mais antiga organização guerrilheira de extrema-esquerda da América Latina, de orientação marxista-leninista. Lideradas originalmente por figuras lendárias como Manuel Marulanda Vélez, o “Tirofijo”, as Farc nasceram a partir de revoltas camponesas no período conhecido como “La Violência”.

Nas décadas seguintes, ao travar uma guerra civil de mais de meio século contra o Estado colombiano, a guerrilha encontrou no financiamento do narcotráfico, ao lado de sequestros e extorsões, a engrenagem para sustentar seu aparato militar. Mesmo após os acordos de paz e as mutações do grupo ao longo dos anos, a expertise técnica no cultivo do arbusto da coca e no refinamento laboratorial permaneceu viva em regiões de selva densa, alimentando redes internacionais de distribuição.

Nos bastidores da inteligência militar e do jornalismo investigativo da Colômbia, a complexa teia que envolve o legado das Farc também ganhou desdobramentos sociopolíticos. Surgiu ali o termo “delfines de las FARC” (os golfinhos das Farc). Na linguagem política tradicional colombiana, o vocábulo delfín é utilizado historicamente para designar os herdeiros diretos e filhos de famílias poderosas e oligarquias políticas.

No caso da antiga guerrilha, investigações apontaram que os filhos de comandantes históricos como Raúl Reyes, Iván Márquez e Alfonso Cano não foram enviados para o combate de fuzil na selva, mas sim para universidades na Europa, Cuba e Venezuela, atuando em redes de apoio político, articulação diplomática paralela e difusão ideológica em ONGs internacionais.

Veja imagens da droga:

Rota da droga e chegada no DF

A investigação que culminou na apreensão promovida pela Seção de Repressão às Drogas (SRD) da 32ª DP durou mais de seis meses. Os investigadores mapearam passo a passo a rota do caminhão que carregava a carga milionária a partir de Cuiabá (MT), ponto estratégico do escoamento interestadual na fronteira oeste do Brasil.

O objetivo do grupo criminoso era descarregar a carga em um galpão clandestino na região de Samambaia. De lá, a cocaína seria fracionada, adulterada com substâncias químicas para aumentar o volume e pulverizada entre pequenos distribuidores e “biqueiras” de toda a capital federal e cidades de entorno.

A abordagem definitiva ocorreu na altura do Recanto das Emas (DF), no momento em que a estrutura logística se preparava para o transbordo final. Dois homens encarregados do transporte e escolta foram presos em flagrante durante a investida policial.

Skunk

No local da prisão, além dos 160 kg de cocaína e dos 15 kg de skunk (variedade de maconha com alto teor de THC), os agentes apreenderam uma espingarda calibre 20 com numeração raspada, o caminhão utilizado no frete e dois veículos de passeio que faziam a escolta do comboio.

Os suspeitos foram conduzidos à carceragem da PCDF e autuados pelos seguintes crimes:

  • Tráfico interestadual de drogas;
  • Integração em organização criminosa;
  • Posse de arma de fogo de uso restrito/com identificação suprimida;
  • Lavagem de capitais.

Se somadas, as penas para os crimes praticados pela dupla podem ultrapassar 30 anos de reclusão. As investigações da 32ª DP continuam para identificar os financiadores do carregamento e os receptores finais da mercadoria na capital da República.

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