A popularização das chamadas canetas emagrecedoras transformou os medicamentos indicados para diabetes tipo 2 e obesidade em protagonistas de um fenômeno estético.
Com a promessa de emagrecimento rápido, substâncias como os agonistas de GLP-1 passaram a ser usadas por pessoas sem indicação clínica formal. Nesse cenário, médicos começaram a observar um efeito preocupante: a chamada agonorexia, termo informal utilizado para descrever a perda extrema de apetite associada ao uso desses remédios.
Embora o nome lembre anorexia, é importante esclarecer que agonorexia não é um diagnóstico médico oficial. A expressão surgiu para explicar situações em que a ação farmacológica reduz a fome de maneira tão intensa que a pessoa praticamente deixa de se alimentar.
Quando a falta de fome vira problema
A agonorexia se caracteriza pela redução tão intensa do apetite que a alimentação passa a ser negligenciada. A pessoa pode pular refeições com frequência, sentir repulsa diante da comida ou evitar situações sociais que envolvam alimentação. Com o tempo, essa restrição pode trazer consequências importantes para o organismo. Entre os principais riscos estão:
- Perda significativa de massa muscular;
- Deficiência de nutrientes essenciais;
- Fraqueza constante;
- Queda da imunidade;
- Alterações metabólicas.
A perda rápida de peso nem sempre significa saúde. Quando o corpo deixa de receber energia e nutrientes suficientes, passa a utilizar reservas musculares, o que compromete força, disposição e equilíbrio metabólico.
Além dos efeitos físicos, especialistas alertam para o risco de reforçar padrões alimentares restritivos e que é fundamental diferenciar a anorexia nervosa — transtorno psiquiátrico caracterizado por distorção da imagem corporal e medo intenso de engordar — do efeito farmacológico provocado pelo GLP-1.
Como o medicamento age no cérebro
Os agonistas de GLP-1 atuam em áreas cerebrais ligadas ao controle da fome e da saciedade. A endocrinologista Marina Karam explica que esses medicamentos “atuam em regiões cerebrais relacionadas à fome e à saciedade”, reduzindo naturalmente a ingestão calórica.
Além disso, eles retardam o esvaziamento do estômago, prolongando a sensação de estômago cheio. Isso faz com que o paciente coma menos sem sentir sofrimento ou privação constante.
Segundo Marina Karam, o efeito vai além da fome física. Ao agir no sistema de recompensa do cérebro, os medicamentos podem diminuir impulsos associados à compulsão alimentar. “Eles diminuem a vontade de beber, e até de fumar, porque agem no sistema de recompensa”, afirma a médica.
Em pacientes com indicação médica adequada, esse mecanismo pode ajudar a romper padrões antigos de comportamento alimentar. O problema surge quando o efeito é exacerbado ou quando o uso ocorre sem acompanhamento.
A procura pelas canetas emagrecedoras cresceu impulsionada por relatos nas redes sociais e pela valorização da magreza rápida. No entanto, vale a pena reforçar que esses medicamentos foram desenvolvidos para tratar condições específicas e devem ser prescritos após avaliação médica.
Quando utilizados fora das indicações aprovadas, os riscos de efeitos colaterais aumentam. A ausência de monitoramento pode impedir a identificação precoce de sinais de desnutrição ou de alterações no comportamento alimentar. A agonorexia surge, portanto, como um alerta dentro desse contexto de uso indiscriminado.