As chamadas canetas emagrecedoras ganharam popularidade pelo efeito rápido na redução do apetite e do peso. Embora sejam consideradas seguras quando bem indicadas, especialistas alertam que o uso sem acompanhamento médico pode trazer efeitos colaterais importantes — de sintomas gastrointestinais comuns a eventos raros e graves, como pancreatite aguda e problemas na vesícula biliar.
O tema ganhou ainda mais atenção após a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) confirmar que investiga seis mortes por pancreatite possivelmente associadas ao uso desses medicamentos no Brasil, todos classificados, até o momento, como casos suspeitos.
Entenda
- Efeitos são mais comuns no início: náuseas e vômitos aparecem nas primeiras semanas.
- Há riscos raros, porém graves: pancreatite e cálculos biliares exigem atenção imediata.
- Uso isolado favorece efeito rebote: sem mudança de hábitos, o peso tende a voltar.
- Nem todos podem usar: alguns grupos precisam de contraindicação ou cautela extrema.
Sintomas mais frequentes e quando surgem
De acordo com o médico integrativo Wandyk Allison, pós-graduado em Endocrinologia, Metabologia, Fisiologia, Nutrição Clínica e Medicina de Precisão, os efeitos colaterais mais relatados são gastrointestinais. Entre eles estão náuseas, vômitos, diarreia ou constipação, sensação de estufamento, azia, refluxo e redução importante do apetite.
Esses sintomas costumam aparecer principalmente nas primeiras semanas de uso ou logo após o aumento da dose. “Na maioria dos pacientes, os efeitos diminuem à medida que o organismo se adapta, especialmente quando a progressão da dose é feita de forma gradual”, explica o médico.

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Alertas que exigem atenção imediata
Apesar de pouco frequentes, alguns eventos adversos são considerados graves e demandam avaliação médica urgente. Um dos principais é a pancreatite aguda, caracterizada por dor abdominal intensa e contínua, que pode irradiar para as costas.
Segundo a Anvisa, há atualmente 225 notificações suspeitas de pancreatite associadas ao uso de agonistas do GLP-1, classe que inclui medicamentos como semaglutida, liraglutida, dulaglutida e tirzepatida, utilizados no tratamento do diabetes e da obesidade. Desse total, 145 registros foram feitos no sistema oficial de farmacovigilância (VigiMed) entre janeiro de 2020 e dezembro de 2025. Quando também são considerados dados provenientes de estudos clínicos, o número chega a 225 relatos.
Em nota ao Metrópoles, a agência reforçou que os registros ainda estão sob avaliação técnica e que “não é possível afirmar que se tratam de casos comprovados”, já que as notificações não estabelecem, por si só, uma relação causal direta. A Anvisa lembra ainda que a pancreatite já consta em bula como evento adverso conhecido desses medicamentos.
Outro ponto de atenção são os problemas na vesícula biliar. O emagrecimento rápido e prolongado aumenta o risco de formação de cálculos, especialmente em pessoas predispostas. Também podem ocorrer casos de desidratação severa, decorrente de vômitos ou diarreia persistentes, além de alterações visuais raras, descritas sobretudo em pacientes diabéticos com retinopatia prévia.
O uso deve ser interrompido e o atendimento médico procurado diante de sintomas como dor abdominal intensa, vômitos persistentes, icterícia (pele ou olhos amarelados), desmaios, alterações visuais súbitas ou qualquer manifestação fora do padrão esperado.

Dependência não, mas efeito rebote sim
Segundo Wandyk Allison, as canetas não causam dependência química. No entanto, podem levar a uma dependência metabólica e comportamental quando usadas como única estratégia de emagrecimento.
“Ao suspender o medicamento sem mudança de hábitos, é comum observar efeito rebote e recuperação parcial ou total do peso”, afirma.
Isso ocorre porque o remédio reduz o apetite e melhora a saciedade, mas não corrige sozinho as causas profundas do ganho de peso, que envolvem fatores metabólicos, hormonais e comportamentais.
Quem deve evitar ou redobrar os cuidados
Segundo médico, alguns grupos exigem contraindicação formal ou avaliação criteriosa antes do uso. Entre eles estão pessoas com histórico de pancreatite, doença da vesícula biliar, história pessoal ou familiar de câncer medular de tireoide ou neoplasia endócrina múltipla tipo 2, além de pacientes com transtornos alimentares ativos. Gestantes e lactantes também não devem utilizar esse tipo de medicação.

Uso prolongado pede acompanhamento
Embora os estudos de longo prazo ainda estejam em andamento, já se sabe que a manutenção do peso perdido depende de mudanças reais no estilo de vida. Sem ingestão adequada de proteínas e estímulo físico, há risco de perda de massa muscular.
“O monitoramento é essencial para evitar deficiências nutricionais, sintomas gastrointestinais persistentes e alterações hormonais”, destaca o médico.
Para ele, as canetas são uma ferramenta importante, mas não uma solução isolada. “A transformação real vem da combinação entre metabolismo, comportamento e acompanhamento médico estruturado”, conclui.