O ex-ministro da Cultura da França, Jack Lang, propôs, neste sábado (7/2), sua renúncia à presidência do Instituto do Mundo Árabe (IMA), em carta enviada ao ministro das Relações Exteriores. A iniciativa ocorre após a abertura de uma investigação pelo Ministério Público da França sobre seus supostos vínculos com o financista norte-americano Jeffrey Epstein.
“Proponho apresentar minha demissão em uma próxima reunião extraordinária do conselho de administração”, escreveu Lang, atual presidente do IMA, que havia sido convocado para comparecer, no domingo, ao Ministério das Relações Exteriores.
Na sexta-feira (6/2), o Ministério Público Financeiro abriu uma investigação preliminar por suspeita de lavagem de dinheiro e fraude fiscal agravada envolvendo Jack Lang e sua filha Caroline.
O chefe da diplomacia francesa, Jean-Noël Barrot, cujo ministério é responsável pela supervisão do IMA, declarou a jornalistas que “toma conhecimento” da proposta de renúncia apresentada por Jack Lang.
“Inicio agora o procedimento para designar seu sucessor ou sucessora à frente do IMA e convoco, em até sete dias, uma reunião do conselho de administração, que escolherá um presidente ou uma presidente interino”, acrescentou Barrot, de volta a Paris após uma viagem internacional.
Jack Lang vinha sendo alvo de fortes pressões desde o fim de janeiro, quando a divulgação de novos documentos relacionados a Jeffrey Epstein revelou a existência de contatos entre os dois.
“Infundadas”
Jack Lang, de 86 anos, havia informado anteriormente que “as acusações feitas são infundadas”. Em comunicado, ele disse ainda receber “com serenidade e até alívio” a investigação aberta na sexta-feira pelo Ministério Público Nacional Financeiro, órgão responsável por combater fraudes fiscais na França.
As autoridades não descartaram na ocasião nenhuma hipótese sobre a manutenção do ex-ministro à frente do prestigiado instituto cultural francês, conhecido por ter lançado internacionalmente a Festa da Música.
“Ele será convocado pelo Ministério das Relações Exteriores, principal financiador do IMA, e será recebido neste domingo (8/2)”, declarou o chefe da diplomacia francesa, Jean-Noël Barrot, desde Erbil, no Curdistão iraquiano, onde estava em viagem oficial.
Segundo pessoas próximas, Lang esteve esta semana em Marrakech, “atordoado e exausto”. Desde Beirute, onde continuava sua viagem, Barrot afirmou que sua prioridade “é garantir o bom funcionamento, a continuidade e a integridade do Instituto do Mundo Árabe”, ressaltando que “os primeiros elementos revelados nesses processos são inéditos e de extrema gravidade” e “exigem investigação rigorosa e aprofundada”.
“Em relação à continuidade de seu mandato, me reservo todas as opções”, acrescentou o chanceler francês, destacando que a subvenção anual do ministério, de € 12,3 milhões, corresponde à metade do orçamento do IMA.
Os pedidos de renúncia se intensificaram desde que os vínculos entre Jack Lang e Jeffrey Epstein vieram à tona com a publicação de milhões de documentos pela Justiça norte-americana, em 30 de janeiro.
O advogado de Lang, Laurent Merlet, considerou “normal que a supervisão solicite esclarecimentos a uma pessoa envolvida e não se limite ao que se lê nas redes sociais e na imprensa”. Ele negou que os documentos provem “uma intensa amizade” entre o criminoso norte-americano e seu cliente.
Na quarta-feira (28/1), Lang havia descartado a possibilidade de renúncia, alegando sua “ingenuidade” diante das revelações sobre relações passadas com Epstein, que morreu na prisão, em 2019.
Após declarar que “assumiria plenamente” seus vínculos passados com o financista norte-americano, Lang assegurou, na quarta, que desconhecia o histórico criminoso de Epstein quando o conheceu, há cerca de 15 anos, por intermédio do cineasta Woody Allen.
Sem acusação formal
Nenhuma acusação formal pesa contra Jack Lang, mas a menção de seu nome em 673 ocasiões nos documentos e seus supostos vínculos com Epstein o colocaram sob intenso escrutínio, junto com sua filha Caroline. Ela renunciou na última segunda-feira (2/2) à presidência de um sindicato de produtores de cinema, após a divulgação de que havia fundado, em 2016, uma empresa “offshore” com o financista norte-americano.
Caroline Lang afirmou ao canal BFMTV, na quinta-feira, que “Epstein era um amigo, não um integrante do círculo mais próximo. Como poderíamos imaginar tais horrores? Eu não podia saber, e meu pai também não”.
Na sexta-feira, o Ministério Público Nacional Financeiro informou ter aberto investigação preliminar por lavagem de fraude fiscal agravada, sobre “os fatos revelados pelo site Mediapart relativos a Caroline e Jack Lang” e seus supostos vínculos financeiros com Epstein.”
“Caro Jeffrey”
Entre os documentos publicados pelas autoridades norte-americanas, constam trocas de mensagens que ilustram a relação entre Lang e Epstein. Em 2017, o empresário Etienne Binant, mecenas do IMA, escreveu a Epstein: “Jack Lang insistiu pessoalmente para que você venha ao seu aniversário. É apenas para o círculo mais próximo, ele não faz esse tipo de convite levianamente”.
Nos mesmos documentos, Lang teria escrito: “Caro Jeffrey, (…) sua generosidade é infinita. Posso ainda abusar?” antes de solicitar que o bilionário o transportasse para uma festa organizada pelo Aga Khan, fora de Paris.
O IMA é uma fundação de direito privado, criada em 1980, que Lang dirige desde 2013. O ex-ministro foi indicado ao cargo pelas autoridades francesas, mas é o conselho de administração do instituto — composto metade por embaixadores de países árabes e metade por personalidades escolhidas pelo Ministério das Relações Exteriores — que formalmente o nomeou e reconduziu à presidência.
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